segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Conto: Cocô torna-se espírita no Rio.

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"Não sou culpado por estar aqui, a culpa é de quem não contribuiu para que existisse o meu cantinho, para eu poder viver em paz". As afirmações foram feitas por um indivíduo conhecido por Cocô que, sem lenço e sem documento, vive perambulando no Rio.

"No Rio, de vez em quando sou atacado: é cutucão daqui, dali. Por falta de opção para sobreviver, grandes e pequenos engolem quem primeiro encontra. Assim, se confirmando o ditado popular: filho de Peixe, Peixinho é", disse o Cocô.

Cocô está convicto de que aos poucos vai ser engolido e teme até a não chegar a ver o mar e as garotas que andam por lá. Mas, ao mesmo tempo, acredita que se não for possível agora, verá em outras encarnações: 'Nas minhas voltas dificilmente estarei no meu cantinho, o mais certo é voltar mesmo aqui para o Rio", lamenta o Cocô.

Cocô afirma que a violência no Rio não se resume aos cutucões, é ainda mais assustadora: "Eles seguem o modo de agir dos Tubarões, triturando e engolindo os indefesos", disse o Cocô, que continua e faz uma profecia: "Serei engolido; quem me engolir, também será engolido."

Cocô afirma, por último, que reconhece não servir para toda obra, mas lamenta o fato dessa identificação ter sido feita somente no Rio: "Nos roçados, nas feiras, nas prateleiras, ninguém via algo de ruim em mim, mas depois que passei pelas entranhas de alguém, recebi o título de que não presto e o apelido de Cocô", lamenta.

Manassés Pinheiro de Almeida.
Luís Gomes-RN.